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"O ARAPAPAHY, JOHN BROWNING E MUITOS CONTOS REIS": NOTAS SOBRE O ARMAMENTO DO CORPO DE INFANTARIA DO MARANHÃO
09/02/2014
Para aqueles que apreciam um pouco da história e para aqueles que apreciam também o mundo das armas, publicamos em nosso site um belo artigo produzido e pesquisado pelo historiador maranhense, Dyego Martins, autor de inúmeros artigos publicados na imprensa timbira.

Trata este artigo de matéria de tratativas de Corpo de Polícia do Estado para importar armas dos EUA para a corporação.
Tudo aconteceu no final do século XIX e início do século XX, aqui no Maranhão e tem muitos aspectos curiosos que você caro leitor, vai gostar.

O Artigo

Na imagem à esquerda, o genial John Moses Browning manuseia sua metralhadora M1895 Colt-Browing, também conhecida como "potato digger" ou “escavadeira de batatas”, em alusão ao formato de seu mecanismo de funcionamento. A metralhadora projetada por Browning desde 1889 e patenteada em 1892, foi uma das primeiras acionadas por gás, com uma taxa cíclica de até 450 tiros por minuto. A arma foi fabricada nos calibres 6x55SR (.243USN), 7,62x59R (.30-40Krag);7.62x63(.30-06); 7x57 Mauser, 7,7x57R (.303 British) e 7,62x54R em alguns modelos para exportação.

Em 1895, a metralhadora se tornou a primeira a ser adotada pela Marinha norte-americana (U.S Navy). Curiosamente, naquele ano, o Governo do Maranhão importou dos Estados Unidos, por intermédio do comerciante Roberto Mojoli, duas metralhadoras sobre rodas, ao que tudo indica, no modelo patenteado por Browning, fabricado na Colt's Manufacturing Company, em Hartford, Connecticut.

Contudo, para discutir o modo como ocorreu essa inusitada aquisição de armamento para o Corpo de Polícia do Estado, inicialmente é necessário mencionar a polêmica questão do igarapé “Arapapahy”. Segundo César Marques, no seu Dicionário histórico-geográfico da província do Maranhão (Tip. do Frias, 1870), o Arapapahy “deságua perto da baía de São Marcos 2 e meia léguas ao sul-sudoeste da cidade”. De acordo com historiador e médico maranhense, o minúsculo igarapé é digno de nota somente em razão da polêmica que norteou a construção do canal aberto entre ele e o Bacanga.

Na mensagem dirigida ao Congresso do Estado pelo então governador, capitão-tenente Manoel Ignácio Belfort Vieira, por ocasião da primeira reunião ordinária, em 06 de agosto de 1892, o chefe do executivo estadual mencionava a questão do canal do Arapapahy. A polêmica teve início em 1761, quando lavradores da ribeira do Itapecuru lançaram um imposto de 160 réis sobre cada arroba de algodão que mandassem ao mercado da capital.

A taxa destinava-se à abertura do canal para facilitar a navegação de embarcações de menor porte pela passagem do Boqueirão. A rota proporcionaria transporte para a capital sem os graves riscos da passagem e da travessia do Itacolomy, pela ligação das baías de Cumã e São Marcos, através do município de Alcântara.

O imposto recolhido na Alfândega deveria ser depositado no cofre denominado “Furo”, a cargo da Câmara Municipal. Contudo, em 1792, a Carta Régia de 27 de junho transferiu a importância já recolhida para o Erário, dando prosseguimento à arrecadação até 1808, quando foi transferida para o Tesouro Nacional a soma de 621:463$533.

Na mensagem ao Congresso, o governador garantia ter reivindicado a quantia de 469:490$781, em favor do Maranhão, ao que felicitava o parlamento estadual por ter apresentado um projeto de lei que tratava da restituição da referida soma, viabilizada através do Decreto nº 117-A, de 4 de novembro daquele ano, quando a União repassou ao Estado a quantia de 439:496$532.

Somente em 5 de julho de 1894 tal quantia foi restituída ao Maranhão, tendo sido destinada, conforme a Lei nº 72, de 24 de agosto, às seguintes finalidades: pagamento da dívida flutuante; amortização de um empréstimo junto ao Banco do Brasil e pagamentos de juros de apólices estaduais. Além disso, a verba foi aplicada na modernização do fardamento fornecido ao Corpo de Polícia e, finalmente, para a compra de duas metralhadoras e parte do armamento destinado ao Corpo de Infantaria do Estado, no valor total de 41:713$ 690. Vejamos:

Lei nº 72, de 04/08/1894, no seu art. 3º:
Art. 3º. Tambem fica auctorizado a despender do mesmo dinheiro do Arapapahy as seguintes verbas:
(...)
2ª. - até 50: 000$000 com a reforma do armamento do Corpo de Infanteria do Estado. (Colecção de Leis do Estado Maranhão. Imprensa Oficial, 1895)

O Decreto nº 17, de 09 de abril de 1890, havia reorganizado o Corpo de Polícia, dando-lhe novo regulamento no dia 21 daquele mês. Em 10 de abril foi nomeado como comandante o tenente do Exército Maurício Antônio de Lemos, que assumiu o posto no dia seguinte. O corpo passou então a ter o efetivo de 302 oficiais e praças, com a seguinte composição: 1 tenente-coronel comandante, 1 major fiscal, 3 capitães, 3 tenentes, 3 alferes, 1 sargento ajudante, 1 dito quartel-mestre, 1 dito secretário, 3 primeiros sargentos, 5 segundos sargentos, 3 furriéis, 23 cabos, 250 soldados e 3 corneteiros.

Naquele momento, existiam na capital: 10 oficiais e 179 praças (das quais 20 ordenanças de autoridades e 12 doentes). Destacados no interior: 1 alferes, 1 segundo sargento, 2 furriéis, 11 cabos e 108 soldados. O armamento longo utilizado até então era do sistema Minié. Segundo Adler Homero Fonseca de Castro, curador de armas portáteis do Museu Militar Conde de Linhares, o uso desse tipo de arma no Brasil seria intensificado em 1857, com a aquisição pelo Exército de diversas armas de novo padrão, em calibre 14,8 mm.

Para substituição do armamento utilizado até então, o Governo Provisório obteve do Ministério da Guerra a cessão de 299 carabinas completas do sistema Comblain, além de 300 tarugos, 100 acessórios de aço, 300 bandoleiras de sola e 300 cinturões completos com palas, patronas e cartucheiras. O material foi distribuído em 23 de junho para o corpo, então aquartelado no edifício da extinta Casa dos Educandos Artífices, tendo em vista a mudança do quartel prevista na Ordem do Dia nº 15, de 25 de fevereiro. Para receberem instrução de manejo e nomenclatura do novo modelo de armamento, vários destacamentos do interior foram recolhidos à capital.

Apesar dos nove anos de uso, o armamento ainda se apresentava em bom estado de conservação. Em 1895, a Lei nº 87, de 4 de setembro, autorizou o aumento do corpo de infantaria em 20 praças. Para reforçar o armamento da guarnição, através da já mencionada Lei nº 72/94, foram importadas dos Estados Unidos, por intermédio do comerciante Roberto Mojoli, “duas metralhadoras sobre rodas Hartford” (em 1899, uma delas foi enviada a Grajaú).

Também foram fornecidos 400 fuzis do sistema Mauser modificado, obtido mediante contrato com a firma Alberto Frend & Cia, do Pará, no valor de 41:713$000. Os negociantes teriam o prazo de quatro meses, a contar da data do contrato, para providenciar o fornecimento do material.

Em 26 de setembro de 1894, a Pacotilha noticiou o recebimento na Alfândega, além das duas metralhadoras, de vinte cunhetes de cartuchos embalados para carabina, vindos pelo vapor Justin. O desembaraço fora efetuado ainda no dia 24. O jornal criticava o pronto recebimento do material bélico, tendo em vista determinação do Ministério da Fazenda do ano anterior que proibia o despacho de armamentos e munições não destinadas a tropas federais que combateram na Revolta da Armada e ainda combateriam o avanço da Revolução Federalista no sul. Pela Circular n. 16, de 26 de agosto de 1893, o despacho ainda deveria se “promovido pela Intendência de Guerra ou de Marinha” na capital, ou por “funcionário federal competente autorizado nos Estados”.

Desse modo, o governo maranhense não obteve autorização para despachar o material bélico, tendo ainda que devolvê-lo, sofrendo o ônus das despesas de viagem e pagando multa, imposta por telegrama, pelos exportadores americanos. Assim comentava a Pacotilha sobre a resolução tomada em má hora pelo governador Casimiro Dias Vieira Júnior: “vem custar ao nosso infeliz Tesouro uma soma avultada”. O valor chegaria a nove contos de réis. No dia 27, o vapor seguiu viagem de retorno aos Estados Unidos, com escalas no Ceará e Pará.

Três anos depois, em 1896, quando o armamento já havia sido devidamente despachado e destinado ao depósito bélico do Corpo de Polícia, o episódio ainda seria lembrado, através de uma carta anônima enviada ao periódico, que não economizava nos comentários contra a administração estadual. Nela, o autor ironizava a destinação dada à verba restituída no caso Arapapahy, aplicada também na compra de armazéns para o Tesouro e “célebres metralhadoras que nos deram arreganhos de D. Quixote”, em alusão ao temor de um avanço das tropas federalistas para o norte do país, o que nunca aconteceu.

Outrossim, em julho daquele ano, o periódico noticiava confrontos entre os soldados de linha e os da força estadual, ocorridos nas imediações do quartel do Campo de Ourique, em razão do assassinato de um soldado do 5º. Batalhão de Infantaria por integrantes do Corpo de Polícia. Na noite de 19 de julho, segundo a publicação, “a Polícia esteve de prontidão, tendo sido preparadas as metralhadoras e tudo disposto para a luta, admitindo a possibilidade de que a soldadesca federal fosse atacar o quartel daquele corpo”.

No dia 22, em nota, o jornal utilizava o episódio para atacar os excessos do Corpo de Polícia, questionando, inclusive, a necessidade de manutenção de uma força estadual. Para tanto, o editor argumentava que no regime democrático não deveria haver “duplicidade de exército”, ao passo que a manutenção da ordem e a segurança da sociedade ficaria a cargo de um corpo “sem armamento Mauser, sem metralhadoras, sem essas terríveis máquinas de destruição que a ciência da balística de mãos dada à perversidade humana, aperfeiçoa dia a dia”.

Sobre Roberto Mojoli, o negociante que intermediou a compra das metralhadoras nos Estados Unidos, sabe-se que, em São Luís, atuou principalmente nos ramos de hotelaria e comércio de joias. Em 5 de dezembro de 1891 desfez sua sociedade com Ferdinand Fouque. De simples negociantes de peles de animais a sócios da casa Ferdinand Fouque & Mojoli, no Largo do Carmo, nº 16, a dupla se tornou conhecida e respeitada no circuito comercial da capital. Especializada na venda de prataria, artigos finos chineses, chapéus de feltro e itens personalizados; o estabelecimento também comercializava de canetas tinteiro a relógios de bolso, pistolas e revólveres importados da Europa.

Mojoli passou a administrar sozinho a joalheria. Lá recebia desde o relojoeiro francês Auguste Charpiot até artesãos e mestres em prataria de renome nacional. Para auxiliá-lo nos negócios, nomeou Theophilo José da Cunha como seu procurador, em 4 de janeiro de 1895, ofício que este ocuparia até 10 de agosto do ano seguinte, quando se desligaria da firma.

Alberto Frend, por sua vez, era um próspero negociante estabelecido no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, nº 44. Em novembro de 1897, sua firma fechou contrato com o governo para exploração do serviço telefônico no Distrito Federal. Em Belém, a companhia se especializou na venda e conserto de instrumentos musicais, tais com pianos, harmônios e órgãos. A filial era gerenciada por Ernst Heyde e sediada na Praça Visconde do Rio Branco (Largo das Mercês).

A exemplo do vizinho Maranhão, em 1895, o Governo do Pará negociou um lote de cerca de quinhentos fuzis e clavinotes Mauser com a Alberto Frend & Cia, fora do contrato brasileiro de importação. Um dos contratos de importação de armamentos leves mais importantes feito no início do período republicano consistiu na dotação do fuzil Mauser modelo 1893, no ano de 1894, em calibre 7mm X 57mm, para substituir o seu antecessor, o fuzil da Comissão Alemã Gewehr 88. O fuzil Mauser 1893, ou Mauser espanhol, que aqui fora denominado de modelo 1894, uma vez que a maioria das unidades apresentavam datações de câmaras daquele ano.

No alvorecer da República, o Brasil não possuía fábricas para suprir os arsenais de suas forças. O armamento empregado pelas tropas federais e milícias estaduais normalmente era adquirido via contratos de importação com fabricantes franceses e alemães. A firma Alberto Frend & Cia. era representante comercial da Siemens & Halske Aktien-Gesellschaft, gigante alemã do setor de comunicações e engenharia elétrica. Mantinha um escritório de representação na Rua Gonçalves Dias, nº 38, sob a gerência do engenheiro-chefe Adolpho Krebs.

Contudo, o envolvimento da Siemens & Halske (S. & H.) com armas de fogo é bem posterior. Conforme Robert W. D. Ball, na obra “Mauser Military Rifles of the World” (Gun Digest Books, 2006), em 1916, o Império Alemão subcontratou a empresa para fornecer “receivers” para os fuzis da Comissão Alemã de 1888 (Gewehr '88?). No ano seguinte, metralhadoras Maxims começaram a ser produzidas pela fábrica da Siemens & Halske em Berlim, para serem experimentadas em aviões de combate.

Desse modo, ainda são pouco conhecidos os detalhes dos contratos firmados entre o Governo do Maranhão e os fornecedores Roberto Mojoli e Alberto Frend & Cia. Igualmente, surgem dúvidas quanto ao destino das metralhadoras adquiridas. Em 1896, o relatório da administração estadual observava que todo o material bélico do Corpo de Polícia já se apresentava em mau estado de conservação, inclusive as duas “metralhadoras Hartford”.

No ano seguinte, o Corpo já dispunha também do seguinte armamento, em bom estado: 121 metralhadoras Nordenfelt (no Brasil, a partir de 1881, a Marinha e o Exército começaram a adquirir tal metralhadora mecânica de três canos, mais leve e móvel, em calibre de fuzil, para ser usada como arma de acompanhamento de tropas de terra, destinada às unidades de cavalaria e artilharia a cavalo), 26 carabinas Winchester, 171 carabinas Comblain, 100 carabinas Mauser, 100 fuzis Mauser, 1 canhão raiado calibre 2 ½. Em mau estado: 1 Nordenfelt e 18 Comblain.

O depósito bélico possuía ainda 91.020 cartuchos (embalados e de festim), 17 balas para canhão calibre 2 ½ e 1880 cartuchos falsos para exercício. No entanto, nos anos seguintes o destino do material considerado obsoleto foi ignorado, assim como os detalhes da participação de Mojoli e Frend, dois comerciantes de ramos distintos que participaram diretamente do desenvolvimento do Corpo de Infantaria da ainda insipiente força policial maranhense, na conturbada infância da República Brasileira.

Nota: algumas informações do texto acima também constam no artigo "Polícia Militar do Maranhão: 177 anos de civismo", de minha autoria, publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 23 de junho de 2013.
fonte: Diego Martins
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